A relação entre o Software Livre e o sistema capitalista

Uma análise sobre o relacionamento do Software Livre com o Capitalismo.

Por “software livre” devemos entender aquele software que respeita a liberdade e senso de comunidade dos usuários. Grosso modo, isso significa que os usuários possuem a liberdade de executar, copiar, distribuir, estudar, mudar e melhorar o software. Assim sendo, “software livre” é uma questão de liberdade, não de preço. Para entender o conceito, pense em “liberdade de expressão”, não em “cerveja grátis”. Por vezes chamamos de “libre software” para mostrar que livre não significa grátis, pegando emprestado a palavra em francês ou espanhol para “livre”, para reforçar o entendimento de que não nos referimos a software como grátis.

(https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt-br.html)

Em muitas rodas, o Software Livre é descrito como uma forma de enfrentamento ao poder das grandes coorporações. Não é raro ouvir defesas entusiasmadas do Linux e outros softwares colocando ênfase nesse ponto.

Dois causos que eu gostaria de contar.

Primeiro Causo: Siga o Dinheiro

O primeiro aconteceu há cerca de 2 anos. Eu me questionei, depois de uma série de ações de marketing sobre quem financiava a Fundação Linux. Achei que seria um desafio descobrir, porém foi muito fácil, já que tudo estava disponível abertamente no próprio site da fundação que coordena o Linux, maior sistema operacional em código aberto do planeta.

Bastou entrar na página de membros coorporativos da fundação (https://www.linuxfoundation.org/membership/members/) para descobrir os nomes: AT&T, Cisco, Fujitsu, Google, Itachi, Huawei, IBM, Intel, Microsoft, NEC, Oracle, Qualcom, Sansung, Tencent e VMWare.

Os membros Platinum da Linux Foundation

De longe, Microsoft e Google me chamaram a atenção, principalmente por serem ambas fabricantes de Sistemas Operacionais de Código Fechado, Windows e Chrome OS respectivamente.

Ao navegar pelos Golds e Silver Members, ainda é possível encontrar empresas como Facebook, Uber, Amazon, Wall Street Blockchain Alliance e outras centenas de empresas de capital privado.

Estava explicado de onde vem o dinheiro.

Segundo Causo: Um passeio pela comunidade de desenvolvedores

Desde, pelo menos, 2010 eu frequento eventos e círculos de desenvolvedores. Como desenvolvedor, é muito comum eu frequentar eventos de softwares desse meio, como Python, PHP, WordPress e outros.

Lembro que em 2014 frequentei um evento da WordPress Foundation, onde ouvi, pela primeira vez, a defesa do empenho para trabalho em Software Livre como um meio de melhorar seu currículo e alçar vagas de empregos em empresas maiores.

Novamente retornei ao Linux, onde fui procurar os principais contribuidores do sistema operacional em seu repositório no GitHub (https://github.com/torvalds/linux/graphs/contributors). Lá encontramos um número desconhecido de contribuídores, cerca de 90 mil pessoas que acompanham o código e 31 mil desenvolvimentos paralelos do Linux.

A pessoa que mais contribuiu foi Takashi Iwai, desenvolvedor que iniciou sua contribuição em 2010 e hoje é um trabalhador da Suse, empresa com foco em soluções coorporativas em código aberto e que tem como principais clientes alguns empresas financeiras, como o Western & Southern Financial Group dos EUA.

Fora ele, funcionários da própria Linux Foundation, bancada por todas as empresas que citei antes, são os principais responsáveis pela manutenção do software atualmente.

Bem, vivemos em um sistema capitalista e, portanto, todos precisam de dinheiro para sobreviver. A entrada no mercado de trabalho por vezes é difícil e, portanto, demonstrar seu talento desenvolvendo um software aberto realmente abre portas para grandes empresas.

Sinto isso na pele como desenvolvedor. Minha incursão em comunidades de software aberto, mesmo focado mais em perguntar e responder perguntas, já rendeu alguns convites de trabalho bastante interessantes financeiramente. É um grande meio de estudo, de visibilidade e de construção de portfólio.

Isso não é um problema, caso você tenha em mente que o Software Livre é apenas mais um elemento do funcionamento de grandes empresas, mas é válido fazer algumas críticas.

Também nem todas as pessoas que contribuem com o Linux recebem para isso. Há um exército de pessoas anônimas que trabalham para melhorar o sistema, tendo, algumas vezes, a mentalidade de coletivizar seu conhecimento de forma aberta e gratuita. Isso pode ser um problema, como visto abaixo.

O romance entre o Linux e a Microsoft Windows

Por muito tempo houve uma guerra de sistema operacionais. Essa guerra passava por programadores, usuários, porém também era influenciada pela empresa que desenvolveu o Windows: A Microsoft.

FSF envia disco à Microsoft para receber código fonte do Windows 7
Microsoft ama o Linux segundo ela mesma

Ela encara o Linux como um concorrente e tentava ignorá-lo e atacá-lo, porém desde 2010 isso mudou e a Microsoft passou a se aproximas do Linux e da Fundação Linux.

Inclusive oferecendo facilidades para executar o sistema operacional em código aberto dentro do seu próprio sistema operacional fechado, assim como em seu serviço de máquinas virtuais: A Azure, onde o Linux representa hoje a maior fatia de sistema operacionais instalados para servidores de nuvem.

A última investida da Microsoft é o lançamento de um Sistema Operacional próprio baseado em Linux, o Azure Sphere, voltado para internet das coisas (Internet of Things – IoT).

Bem. Basicamente a Microsoft está utilizando tudo o que foi criado pelo Linux nos últimos tempos para aumentar seus lucros e alcance. O próprio Windows 10, tão elogiado após o fracasso do Windows 8, foi melhorado ao longo dos anos com base em códigos derivados do Linux. E isso ocorreu com outras empresas que também se aproximam do código aberto.

Essa realidade, faz com que o exército de desenvolvedores anônimos, cheios de ideologia, se tornem um exército de trabalhadores não remunerados que estruturam o lucro de grandes empresas como Microsoft, Google e Amazon.

O Marketing da Microsoft a coloca como uma amante do Software Livre, mas as recentes tentativas fracassadas de fazer com que a empresa abra o código do Windows 7, demonstra que não era amor, era cilada.

O Software Livre é mais um elemento do capital

Com o exposto, é possível incluir o Software Livre como outro elemento do capital, baseado em três pilares de trabalhos: Permite a melhoria de ferramentas privadas e aumento de lucro, Serve de meio para formação de mão de obra e, por último, garante um exército de trabalhadores não remunerados no desenvolvimento de software.

Não é possível ser contra o uso de Software Livre, o código aberto fornece uma garantia importante de segurança por conta da possibilidade de auditoria sobre o que exatamente cada ferramenta faz, além de fornecer, meios baratos para que alguns trabalhadores possam executar seu trabalho. Esse é o meu caso, ao desenvolver muita coisa em PHP, Python, MySQL e WordPress, por exemplo. Caso eles fossem ferramentas pagas, minha entrada no mercado de trabalho seria muito mais difícil do que foi.

É importante ressaltar, contanto, a impossibilidade da defesa das ideias da utilização do software livre como enfrentamento às grandes empresas do capitalismos. Eles nada mais são do que uma extensão delas.